MUITO ALÉM DA OBJETIVIDADE
Estas linhas falam de uma relação de amor e ódio com os telejornais. De tantas vezes que me sentava (e ainda me sento) frente à TV e começava a falar mal do que neles via de errado, ou me emocionava com o que achava interessante. Por serem cada vez mais escassos esses últimos momentos, deveriam ser mais ‘cultuados’! É uma viagem que passa também por textos, citações, conceitos e referenciais de alguns teóricos da comunicação, que se não foram citados aqui, pelo menos fizeram a minha cabeça e a de muita gente.
Textos que falam geralmente sobre a inexistência de objetividade no telejornalismo a partir do conteúdo político das notícias apresentadas, ou do jogo de interesses interno das emissoras e que, apesar de ler e ouvir muitos comentários nesse sentido no decorrer do curso de comunicação, me levaram a constatar que a técnica ensinada contradiz o conteúdo das opiniões. Como se isso não bastasse, ainda defende-se em encontros de jornalistas o direito a uma “imagem objetiva da realidade mediante uma informação precisa e abrangente”.
Discursos que se contradizem fizeram resultar num texto que não pretende falar na política de comunicação no Brasil, nem por quais motivos ainda se faz a defesa de um pressuposto refutado - o compromisso com a verdade. A intenção deste trabalho é denunciar a ausência de objetividade do telejornalismo a partir de seus aspectos formais.
São necessárias aqui duas colocações para nortear este trabalho: a realidade objetiva é também uma ficção que se passou por real durante um bom tempo, mas hoje não passa de uma construção aos nossos olhos ajudada pelo conteúdo e pela forma, inter-relacionamento dos discursos verbal e não-verbal. Em conseqüência disso, pode-se dizer que a manipulação é inerente ao relato - não podendo aqui ser confundida com falta de objetividade - e que o observador de um fato sempre o relata de acordo com seus referenciais.
A abordagem de um acontecimento no telejornalismo não é muito diferente da narração de um relato pessoal a não ser pela abrangência e pelo número de fontes que influenciam na elaboração da notícia que é transmitida. Não se pode falar em singularidade do fato se passamos a compreendê-lo a partir desta ótica. A descrição de um acontecimento é uma construção orientada pelas condições de quem a produz.
Segundo José Manoel Moran, “o repórter é um intermediário que se coloca no lugar do público e seleciona os fatos de acordo com o que ele pensa que são as expectativas do público, do editor e do proprietário”. Além disso ele também tem seu próprio entendimento do assunto e isso influencia na elaboração da notícia.
O que vai ao ar não é só interpretação de um fato através de um gênero literário, mas também obra de arte coletiva, desenvolvida e influenciada pelos fatores que iremos aqui apresentar.
O que interessa às pessoas nos telejornais é o que acontece. Para fazer suas sínteses dos acontecimentos diários, os telejornais utilizam-se de critérios de seleção. Ciro Marcondes Filho nos mostra, no seu livro O Capital da Notícia, que o fato é equivalente à matéria-prima transformada em mercadoria, a notícia. Isso é o que acontece com qualquer relato: quem conta um conto não só aumenta um ponto, como deixa nele também a sua impressão, transformando-o.
Ainda segundo Moran, os critérios determinantes da organização da informação na TV são:
- Interesse relacionado à quebra de rotina - “interessam assuntos que se afastam da norma, porque se situam acima dela, ou porque se desviam da normalidade”.
- Imprevisibilidade e atualidade - Reforçam a necessidade de presentificar o passado e apresentar aos telespectadores um mundo dinâmico e espetacular.
- Proximidade física e afetiva - Conseguidas através de técnicas utilizadas no tratamento e na seleção de notícias.
- Quantidade (cobertura) e poder multiplicador - A preocupação dos telejornais é atingir um maior número de pessoas através do conteúdo de suas notícias, fazendo, se possível, com que elas tenham desdobramento em outras edições ou mesmo em outros veículos de comunicação.
- Critérios retóricos - Que intensificam o valor da notícia: chamadas no início do jornal, tempo total da notícia, grau de ilustração...
O princípio da objetividade se desmonta no próprio modo de existência do telejornal: os acontecimentos são determinados pela vontade dos produtores, aconteceu o que eles querem mostrar, da maneira que eles querem mostrar. Esta característica é diretamente ligada com a política de comunicação implementada pelo governo e no interior das emissoras.
Em nome da credibilidade se desenvolve uma linha de telejornalismo que combina dinamismo com reprodutibilidade técnica, dando origem a um produto que legitima sua autoridade através do distanciamento com o telespectador. Apesar de todo o ambiente construído no telejornal reforçar a sobriedade, ele sobrevive da anormalidade da vida, pois ninguém liga a TV para saber que o mundo está como está, mas sim para saber o que mudou, ou seja, o que aconteceu.
Cada vez mais convivem no telejornalismo dois ambientes: a seriedade e o espetáculo. A TV é reconhecida como fonte de conhecimento científico e histórico através dos telejornais (mas também de outros gêneros), mas precisa passar as informações da melhor maneira possível, dando lugar aí para o ‘show de notícias’, potencializando-as ou banalizando-as em função da forma pela qual são apresentadas. Interessa-nos aqui investigar os elementos que contribuem para a realização deste espetáculo que é o gênero telejornalístico.
QUANDO COMEÇA
O telejornal começa nas chamadas introduzidas na programação que o antecede, anunciando notícias de maior importância. Como as pessoas buscam na TV o entretenimento, deve-se fazer com que a atenção do telespectador seja acionada para o telejornal que vem em seguida. Interessante aqui é investigar as notícias que são colocadas como isca para que as pessoas sejam 'fisgadas'. Inevitável é a tendência do telejornal em se transformar cada vez mais num folhetim do cotidiano, colocando atrativos para conquistar e atrair a sua audiência, pois a 'novela' não é só caracterizada no início de cada edição.
QUEM FALA
É bem verdade que a preocupação com o vestuário do William Bonner abaixo da cintura não tem origem nos teóricos da comunicação, mas ela denuncia a intenção dos telejornais em fazer com que os responsáveis por levar a notícia aos telespectadores sejam tão inumanos quanto isso for possível. Com roupas sóbrias, vozes imponentes e palavras medidas, eles conseguem conquistar credibilidade através do distanciamento. Paradoxalmente a leitura de notícias é envolvida por uma discreta entonação que visa criar intimidade com o telespectador, certas vezes reforçando o senso comum, outras reforçando a ideologia da emissora, mas sempre se constituindo em opinião camuflada.
A identificação dos apresentadores com a emissora e, conseqüentemente com o telejornal, é fundamental para que os telespectadores criem empatia, ou seja, o que vale é criar a marca do telejornal, e o apresentador, como parte integrante do planejamento visual, é uma peça importante nesse processo.
A imagem do apresentador também é trabalhada através do jogo de câmeras. Planos médios e primeiros planos se intercalam, contribuindo para atribuir valor à notícia. Novamente apresenta-se a contradição do telejornal: torná-lo ou não humanizável? O apresentador de tudo fala, mas de nada sabe. Eis que surge então o âncora.
O âncora é aquele apresentador que ‘sabe do que está falando’ e faz comentários sobre as notícias para esclarecer os telespectadores. Não há camuflagem nas opiniões, mas nem por isso elas deixam de ser desnecessárias ou reacionárias. A existência da opinião no telejornalismo deveria aproximá-lo do público. Ao contrário, estimula a credibilidade através do reforço à autoridade: do apresentador, que está identificado diretamente com o telejornal; ou do âncora, cujos comentários geralmente contribuem para reforçar o senso-comum. Critica-se o que se pode: revolução consentida.
Repórteres - Como já foi dito aqui, a elaboração das matérias por parte dos repórteres é sempre envolvida por vários interesses, até mesmo os deles. Se o apresentador do telejornal (exceto o âncora) não tem existência própria, porque faz parte de sua identidade e anula-se em prol do espetáculo. O repórter existe e convive explicitamente com outras personas dentro de si no desenvolvimento de seu trabalho.
Entrevistados - A legitimação do telejornal através da autoridade também se desenvolve aqui na escolha de seus entrevistados. Claro! Um assunto deve ser abordado por pessoas que entendam dele, mas não só por estas e nem estas devem ser realçadas em detrimento do ‘povão’. Porque, na maioria das vezes, as ‘pessoas comuns’ não têm lettering próprio? Elas não são ninguém, um comentário a mais no meio da multidão. Seriam úteis como estatística, mas aqui ganham a função de colorir a notícia e ser famosos por 15 segundos.
O povo na TV não tem opiniões inteligentes, pois estas pertencem aos especialistas, suas intervenções sempre são superficiais, curtas e/ou engraçadas, reforçando o abismo entre os que sabem e os que não, fazendo o povo rir de si mesmo e confiar nas autoridades do assunto: convidados especiais e o próprio telejornal.
Em relação aos três papéis: apresentador, repórter e ‘povão’, uma regra é geral: deve-se ter intimidade com a mídia e isso significa boa apresentação, ou apresentação adequada para o papel (e aí entram todos os estereótipos sociais e psicológicos), desembaraço, síntese de idéias e sem radicalizações (a não ser quando for necessário mostrar).
O QUANTO SE FALA
Critica-se o tempo no telejornal freqüentemente por banalizar e/ou fragmentar as notícias. Este é um dos vários casos onde o atingido é a programação, quando deveria se ter claro as características intrínsecas do meio. A fragmentação é conseqüência do tempo destinado ao telejornal na programação geral da emissora e impõe condições particulares de produção. Quanto maior o tempo e o investimento dado ao noticiário ou a um assunto em particular, mais eficiente pode ser sua abordagem. A banalização por sua vez é juízo de valor, determinado portanto, pela notícia em si. Apontar o tempo como um dos fatores da banalidade do noticiário é encontrar uma desculpa para a incompetência deste.
Por sua vez, a crítica à manipulação baseada nos diferentes tempos destinados a cada fonte é bastante pertinente, apesar de partir do princípio de que as pessoas acreditam integralmente no que foi noticiado. O telejornal influencia aqueles que o tem como fonte principal, e às vezes única, de informação sobre assuntos gerais. Não livrando os telejornais de assumir posições na cobertura de um assunto, tendo como contribuição o conteúdo da declaração de uma determinada fonte.
Apesar de se atribuir à televisão a imediaticidade na cobertura dos acontecimentos, a maioria das reportagens no telejornal são editadas segundo técnicas que variam não só de emissora para emissora, como de telejornal para telejornal dentro da própria emissora. Geralmente procura-se privilegiar a síntese, trabalhando com vários planos de cobertura para situar o telespectador no espaço referente à notícia. Exceção a esta tendência são as reportagens policiais consagradas pelo Aqui Agora, do SBT, através da noção de tempo real no telejornalismo: planos longos, pouco editados e repórteres movimentando-se junto com as câmeras, intencionam trazer ação para a notícia. Correm o risco de esvaziar de conteúdo e banalizar a informação, tirando até mesmo a essência que a caracteriza como notícia (pois nada noticia) passando a documentário (pois geralmente documenta-se o processo da ação).
ONDE FALAM
No frio estúdio iluminado artificialmente, apresentadores frios transmitem acontecimentos do Brasil e do mundo. Missão impossível? Não, mas com certeza esta é uma outra herança do rádio da qual não conseguiram se livrar. Apesar da linguagem televisiva pedir e possibilitar dinamismo de imagens, sobra para o apresentador com sua voz polivalente fazer as notícias criarem forma, remeter o público às imagens quando externas não existem.
Enquanto isso, a dinamização dada por aqueles que reportam o acontecimento aos telespectadores serve para entretê-los em relação ao assunto. Envolver-se na notícia assumindo-se como um dos personagens, fazer uma investigação apurada, criar um clima descontraído ... o repórter monta o gênero da notícia. Ele é o pintor do quadro e sabe mais do que ninguém quais os pincéis que devem ser usados ou não.
Chega-se mesmo ao caso extremo de abolir o repórter para se dar lugar a atores na reconstituição de crimes: tudo em prol da ação! Outras vezes, noveliza-se o espaço telejornalístico dando as novas informações e versões do último seqüestro. Ter a violência todos os dias nos telejornais é um bom referencial para se denunciar a escolha de notícias, pois os crimes fascinam, aterrorizando. Mas quem se importa com o terror se a audiência aumenta ou pelo menos se mantém?
O TELEJORNAL ACABA QUANDO TERMINA
O último ponto do nosso roteiro de viagem não poderia deixar de ser o fim dos telejornais. Um deles é lúdico, que legitima o show de notícias como entretenimento, que sempre dá por último uma boa notícia; e o flash-back, fundamentado em pesquisas que afirmam ser o telespectador capaz de se lembrar de apenas 10% do que foi noticiado num telejornal imediatamente após a sua elaboração.
Pesquisa esta que não convive com a denúncia da manipulação do receptor, pois se sequer não se lembram do que foi ao ar, não podem ser manipulados. Outra crítica que tem muitas origens e formas é a massificação, que muitas vezes não se fundamenta por causa do excesso de informações cruzadas, das fontes variadas que interferem no entendimento do receptor e certas vezes até agem em favor dos marginalizados e excluídos socialmente.
DESCENDO NUM PORTO NÃO TÃO SEGURO
Este é um levantamento superficial sobre aspectos formais que compõem o telejornalismo no Brasil. Deve-se partir do entendimento que a TV é considerada uma importante fonte de conhecimento e entretenimento e que portanto é legitimada pelo público. Procurou-se mostrar aqui de que forma o telejornalismo se impõe através do reforço à autoridade e como o real é reelaborado através da construção das notícias, abolindo assim qualquer idéia de objetividade.
Prof. Adilson Cabral
Professor da Universidade Estácio de Sá - RJ
Mestre e Doutorando em Comunicação Social pela
UMESP - Universidade Metodista de São Paulo